Há uma coisa especialmente bonita quando uma criança escreve: ela ainda não aprendeu que a imaginação precisa pedir licença à realidade.
É desse território livre que nasce O Mundo Pirueta, de Maria Eduarda Cardoso Felício, uma obra que chama atenção não apenas pela idade de sua autora sete anos , mas pela maneira como transforma aquilo que uma criança conhece, ama e sente em matéria literária.
Mia, a protagonista, gosta de música, toca piano e, a partir de um acontecimento mágico, atravessa um portal para um mundo onde as flores dançam, as nuvens parecem notas musicais e o chão guarda a promessa de uma canção. Ali, a fantasia não funciona como fuga. Ela é a própria linguagem da narrativa.
Mas o colorido desse universo encontra uma ameaça: Apagão da Escuridão, personagem que deseja eliminar os sons, as cores, os risos e, sobretudo, a imaginação.
Apagão não é apenas o vilão que precisa ser derrotado. Ele carrega uma história. Um dia, também foi uma criança que amava música. A solidão e a tristeza, porém, fizeram sua luz desaparecer.
E Maria Eduarda escolhe uma saída delicada para esse conflito: ninguém vence Apagão pela força.
As crianças cantam.
A música alcança justamente o lugar que a escuridão havia escondido. Ao ouvir aquela melodia, Apagão se lembra de quem foi. E é dessa lembrança que nasce sua transformação em Luz do Som.
Essa escolha revela uma compreensão muito particular sobre o mundo: há dores que não precisam ser combatidas com mais violência, mas encontradas com aquilo que ainda resta de humano dentro delas.
A música, então, deixa de ser apenas um elemento da aventura. Torna-se memória, afeto, comunicação e possibilidade de recomeço.
Também chama atenção a presença de Mia como uma menina com vitiligo. Suas manchas não são transformadas em problema, explicação ou definição. Mia é, antes de tudo, uma criança que toca piano, faz amigos, enfrenta desafios e atravessa mundos. A diferença existe, mas não limita a personagem.
As ilustrações de Lu Olivier ampliam esse universo imaginado por Maria Eduarda e ajudam a dar forma às cores, aos personagens e à atmosfera fantástica da narrativa.
Mas existe algo ainda maior por trás de O Mundo Pirueta: o gesto de adultos que acreditaram na imaginação de uma criança e ajudaram a transformá-la em livro.
Porque publicar uma história escrita por uma criança não significa apenas colocar palavras no papel. Significa dizer a ela: a sua voz importa. O que você imagina merece ser escutado.
Antes de ensinar uma lição às crianças, o livro parece lembrar alguma coisa aos adultos: não deixemos que a vida apague tão cedo aquilo que um dia nos fez inventar mundos.

Siga a autora e adquira a obra diretamente com ela em:
