Por Cibele Laurentino
Existe uma habilidade cada vez mais rara em nosso tempo: a capacidade de escutar. Não apenas ouvir palavras, mas acolher histórias, perceber silêncios e compreender que a vida também se revela naquilo que quase nunca é dito. Enquanto lia Eu e Eles – Volume 2: Crônicas Olhos Brilhantes, de Ricardo Salim, tive a impressão de que estava diante de um escritor que, antes de aprender a escrever, aprendeu a escutar.
Essa percepção atravessou toda a leitura.
Costumamos atribuir ao cronista um olhar privilegiado. Eu acrescentaria outra qualidade: um ouvido sensível. A boa crônica nasce quando alguém presta atenção às conversas interrompidas, às frases ditas sem pretensão, às lembranças compartilhadas numa mesa de café ou aos comentários aparentemente banais que revelam muito sobre quem somos.
Ricardo Salim escreve exatamente desse lugar.
Suas crônicas não dependem de acontecimentos extraordinários. Elas nascem da escuta do cotidiano. Um jogo de futebol, um almoço em família, um costume antigo, uma superstição popular ou a relação afetiva com um animal de estimação tornam-se matéria literária porque o autor compreende que toda experiência humana merece ser contada quando observada com sensibilidade.
Essa é uma característica que considero essencial na literatura contemporânea. Vivemos cercados por vozes que desejam falar, convencer, opinar e responder. Poucos, entretanto, ainda demonstram disposição para ouvir. A escrita de Salim parece caminhar na direção contrária desse ruído permanente. Ela desacelera, acolhe e transforma o leitor em participante da conversa.
Ao longo das páginas, encontrei um texto que não busca protagonismo para o escritor. Pelo contrário. O autor abre espaço para que pessoas comuns ocupem o centro da narrativa. Seus personagens carregam imperfeições, humor, fragilidades e contradições que poderiam pertencer a qualquer um de nós. Talvez por isso exista tanta identificação entre leitor e obra.
Também me chamou atenção a forma como Ricardo Salim compreende a função da crônica. Ela não aparece apenas como um registro do presente, mas como um gesto de preservação da memória afetiva. Ao escrever sobre hábitos, costumes e pequenas histórias, o autor acaba registrando um modo de viver que, pouco a pouco, vai sendo transformado pelo tempo.
É impossível concluir a leitura sem pensar no papel que a literatura desempenha na conservação dessas experiências. Os acontecimentos históricos costumam ser registrados pelos documentos oficiais. Já as emoções de uma época encontram abrigo nos livros. São eles que preservam a linguagem, os afetos, os gestos e até os silêncios de uma geração.
Ricardo Salim demonstra compreender profundamente essa responsabilidade. Sua escrita não procura o espetáculo. Busca a permanência. Não deseja impressionar pela grandiosidade, mas pela autenticidade. E talvez seja justamente essa escolha que torne suas crônicas tão próximas do leitor.
Ao fechar Eu e Eles – Volume 2: Crônicas Olhos Brilhantes, fiquei com a sensação de que a literatura continua cumprindo uma das suas funções mais nobres: lembrar que cada pessoa carrega uma história digna de ser contada.
Num mundo em que todos parecem disputar a palavra, Ricardo Salim escolhe um caminho mais difícil e muito mais humano. Ele escuta. E é dessa escuta atenta que nasce uma literatura capaz de permanecer conosco muito depois da última página.

Onde encontrar a obra
Eu e Eles – Volume 2: Crônicas Olhos Brilhantes está disponível em formato impresso e e-book na Amazon, onde também podem ser encontrados outros títulos de Ricardo Salim. A obra convida o leitor a desacelerar o olhar e descobrir que, muitas vezes, as histórias mais marcantes são aquelas que acontecem silenciosamente no cotidiano.
