Uma iniciativa da Secretaria Estadual da Educação que propõe organizar estudantes em turmas de acordo com o nível de aprendizagem tem provocado debates entre especialistas, educadores e gestores escolares. Batizado de Projeto Voar, o programa já começou a ser implementado em dezenas de escolas estaduais distribuídas pela região metropolitana, litoral e interior do estado, com o objetivo de reduzir defasagens educacionais acentuadas nos últimos anos.
A proposta consiste em agrupar temporariamente os alunos conforme o estágio de desenvolvimento acadêmico, especialmente em áreas fundamentais como leitura, escrita e matemática, permitindo que professores adotem estratégias pedagógicas mais específicas para cada grupo. A iniciativa surge em um contexto de preocupação crescente com o desempenho escolar, especialmente após o período de interrupções e dificuldades de aprendizagem observadas durante a pandemia, que ampliou desigualdades educacionais e provocou atrasos no processo de alfabetização de milhares de estudantes.
Defensores do projeto afirmam que a divisão por níveis pode facilitar o acompanhamento individualizado e acelerar a recuperação de conteúdos essenciais, principalmente entre alunos que apresentam dificuldades significativas. Para esses especialistas, manter estudantes com grandes lacunas de aprendizagem em turmas regulares, sem intervenções específicas, pode dificultar o avanço educacional e ampliar a defasagem ao longo dos anos escolares. A proposta, nesse sentido, busca criar condições para que alunos com maior atraso recebam atenção pedagógica mais intensiva e possam, posteriormente, retornar às turmas regulares com maior autonomia acadêmica.
Experiências anteriores semelhantes reforçam esse argumento. Em iniciativas realizadas em redes municipais de ensino, a criação de turmas menores e focadas na recuperação de alfabetização permitiu a reintrodução de alunos às classes regulares após períodos de reforço intensivo, com resultados considerados positivos por gestores e educadores envolvidos. O modelo é apresentado como uma alternativa temporária de intervenção pedagógica, e não como um sistema permanente de segregação escolar.
Apesar do apoio de parte dos especialistas, o projeto também enfrenta críticas. Alguns educadores alertam que a divisão por níveis de aprendizagem pode gerar estigmatização de estudantes, reforçar desigualdades e comprometer a convivência entre alunos com diferentes ritmos de desenvolvimento. Há ainda preocupações relacionadas à forma de implementação, ao treinamento dos professores e à necessidade de acompanhamento contínuo para evitar que a medida produza efeitos contrários aos desejados.
Outro ponto levantado por críticos é a importância de garantir que a reorganização das turmas venha acompanhada de investimentos em formação docente, materiais pedagógicos e apoio psicológico aos estudantes, de modo a assegurar que a iniciativa realmente contribua para a melhoria do desempenho escolar e não se torne apenas uma reorganização administrativa sem impacto educacional efetivo.
Com a implantação inicial em dezenas de escolas, o Projeto Voar passa a ser observado com atenção por especialistas e gestores educacionais, que acompanham seus resultados práticos ao longo do ano letivo. A expectativa é que os dados obtidos nessa fase inicial ajudem a avaliar a eficácia da proposta e orientem possíveis ajustes antes de uma eventual ampliação do programa para outras unidades da rede estadual.