- Psicóloga Maria Angela M. Gorayeb
- CRP06/34.669
- @mariaangela.gorayeb
Como psicóloga tenho observado nos últimos anos o aumento progressivo das queixas de sono entre os pacientes, e o quanto isso afeta seu humor, disposição, produtividade e até relacionamentos. Comecei a estudar o assunto profundamente, livros, artigos científicos, me filiei a Academia Brasileira do Sono para ter acesso exclusivo a conteúdos válidos, participei de congressos. Esse acúmulo de conhecimento resultou em ferramentas para ajudar os meus pacientes, e venho tendo a satisfação de ouvir testemunhos do tipo: “antes de fazer a terapia com você eu passei anos dormindo de três a quatro horas por noite, agora eu sei o que é dormir”.
Resultou também no livro Sono de A a Zzzz, que como o título sugere aborda o sono em todos os aspectos. O que talvez o título não deixe claro, é que eu fiz esse livro em formato de um dicionário, eu busquei com isso facilitar a leitura e a consulta pelos leitores de acordo com a necessidade ou curiosidade de cada um. Esse dicionário tem quase 300 verbetes com a terminologia usada na ciência do sono, conceitos de psicologia, cronobiologia, neurociências e algumas curiosidades históricas e culturais sobre o sono e os sonhos. Escrevi o livro para ajudar as pessoas a dormirem melhor, para divulgar a importância do sono entre a população leiga, e atrair mais profissionais de saúde para a formação nessa área fascinante do comportamento e saúde humana.
Revendo o conteúdo do livro, percebi que ele conta a história do sono, mas não em ordem cronológica e sim, alfabética! Esse artigo é um resumo dessa história.
Nós passamos um terço de nossas vidas dormindo e surpreendentemente, até bem pouco tempo atrás, o sono era apenas mistério. Dormir é uma experiência universal no reino animal, e isso sugere que não se trata de um fenômeno aleatório, mas de um processo essencial à própria manutenção da vida. Não fosse assim, o sono teria sido eliminado pela evolução, porque na natureza o tempo que se passa dormindo é um tempo de maior exposição aos riscos do meio ambiente.
Os primeiros hominídeos provavelmente dormiam nas árvores, e a qualidade de sono ficava comprometida. Quando o Homo erectus dominou o fogo, eles puderam descer das árvores para dormir no chão. Talvez essa tenha sido uma virada decisiva, porque com mais tempo e melhor qualidade de sono o nosso cérebro desenvolveu mais inteligência, memória e sociabilidade, e isso alavancou a transição para o Homo sapiens, que é esse ser humano que nós somos hoje. Nosso organismo ainda carrega a herança desse período evolutivo. A nossa necessidade de sono não mudou. O que mudou foi o mundo, ou melhor, foi modificado por nós. A despeito disso, séculos de evolução biológica não mudam rápido como mudou a nossa tecnologia. Nós podemos achar que dormir é perda de tempo, mas o nosso corpo não acha, ele ainda pede o “sono das cavernas”: escuridão, silêncio e temperatura amena. Sempre que nos afastamos disso, é a nossa saúde que paga o preço.
As mais antigas práticas médicas se preocupavam e cuidavam do sono, antigo Egito, Grécia, Roma, igualmente no oriente, como na Medicina Tradicional Chinesa e na medicina tradicional indiana. Na visão da Ayurveda, a saúde possui 4 pilares de sustentação: alimentação, movimento, silêncio e sono. As medicinas tradicionais do oriente permanecem praticamente as mesmas, por outro lado, a ciência ocidental mudou bastante, se interessando progressivamente pelo sono a partir do século XIX. E atualmente, a recém-criada Medicina do Estilo de Vida, também apresenta os seus pilares, que são praticamente os mesmos lá da antiga Índia: Sono, claro, é um deles.
A ciência do sono teve início com a fisiologia médica, a psicologia e a biologia, mas hoje todos os profissionais de saúde podem se especializar em sono, além de médicos e Psicólogos, também Nutricionistas, Fisioterapeutas, Dentistas, Educadores físicos, Enfermeiros e Fonoaudiólogos.
Com a chegada do Modernismo ocorreram rápidas mudanças sociais e ambientais, como a iluminação pública e a ampliação da vida noturna, que deram início a uma competição da vida social com a nossa necessidade natural de dormir. Além disso, a alta demanda pela produtividade e o aumento do trabalho em turnos característicos da Revolução Industrial foi a “pá de cal” no sono de pelo menos um quarto da população. Até então eram apenas as parteiras e os vigias que trabalhavam a noite, mas agora vivemos numa sociedade 24/7.
Após a Primeira Grande Guerra as pessoas estavam precisando resgatar seus sonhos e o universo onírico ganhou força total. Os sonhos estavam presentes na estética das artes plásticas, na literatura e na crítica social. E a ciência não escapou desse movimento. O psiquiatra austríaco Sigmund Freud propôs uma teoria revolucionária, baseando-se no estudo e na interpretação dos sonhos de seus pacientes ele criou a Psicanálise. Aqui nascia o tratamento pela palavra, ou seja, a psicologia e a psicoterapia.
E não é que atualmente, é justamente um tratamento psicológico, a Terapia Cognitivo Comportamental que é considerada o tratamento padrão ouro para a insônia, que é o transtorno do sono de maior prevalência na população. Quase metade dos adultos irá se queixar de insônia em algum momento da vida.
A era Contemporânea viu surgir o EEG e os exames de imagem, que puderam estudar o cérebro vivo em funcionamento e muitos dos mistérios do sono e do sonhar finalmente foram revelados. Saímos da narrativa dos sonhos para a mensuração do sono e de seus estágios, dos efeitos no corpo e na cognição causados tanto pelo sono quanto pela falta dele. E afinal, como estamos dormindo na era dos smartphones?
Estamos dormindo menos tempo e com pior qualidade. Não sou eu que digo, são os números, os resultados de amplas pesquisas feitas no mundo todo. Subvertemos nosso habitat natural e passamos o dia todo longe da luz solar e grande parte da noite expostos a luz azul das telas. Nossas cidades têm elevados níveis de poluição sonora e luminosa.
Não são só os transtornos de sono que estão aumentando, os transtornos de ansiedade e as doenças crônicas não transmissíveis como diabetes e obesidade, e as doenças neurodegenerativas como Alzheimer também. Porque o sono está diretamente envolvido em tudo isso. Enquanto estamos dormindo, o nosso corpo está trabalhando duro, durante o sono não acontecem só sonhos, além de acontecer uma faxina geral no cérebro, é nessa hora que ocorrem a regulação de pressão arterial e do metabolismo energético, regulação emocional e sedimentação de memórias, e a recuperação de tecidos, produção de substâncias anti-inflamatórias. Dormir bem pode ser a cura de muitos males…
A ciência do sono, como a ciência de modo geral irá progredir em ritmo acelerado com o uso de mega dados e inteligência artificial. A quem espera que no futuro vá ser possível filmar um sonho enquanto estiver sendo gerado pelo cérebro para assistir depois como se fosse um filme. Há cientistas tentando desenvolver uma pílula que substitua a atividade física e eu não duvido que haja alguém pensando em desenvolver uma pílula que substitua o sono também. Tudo isso para que? Para termos mais tempo para produzir mais e consumir mais, ou para passar mais tempo no Instagram…
O meu desejo para o futuro do sono é uma volta ao passado, para as noites escuras e silenciosas, para o ritual de recolhimento e desaceleração antes de dormir, que é a chamada Higiene do Sono. Esse é o nome de um protocolo que é a porta de entrada para o tratamento de todos os transtornos de sono e nada mais é do que um apanhado de hábitos que foram caindo em desuso com o passar das décadas.

Fica aqui o meu convite a curiosidade e ao cuidado com o sono de todos. O livro pode ser adquirido nas livrarias virtuais ou no site da editora: https://www.librion.com.br/sono-de-a-a-zzzz