Por: Iuri Macedo Piovezan
Toda ordem política precisa justificar por que merece ser obedecida. Ao longo da história, essa legitimidade foi construída de diferentes maneiras. Alguns governos fundamentaram sua autoridade na tradição; outros, na força das instituições; outros ainda, na eficácia administrativa ou em projetos ideológicos capazes de organizar a vida coletiva.
Há, entretanto, uma forma distinta de legitimidade que tem adquirido crescente importância nas democracias contemporâneas: a legitimidade moral. Nela, a principal reivindicação de um movimento político não consiste em afirmar que possui as melhores propostas para governar, mas que seus representantes são moralmente superiores aos seus adversários.
Essa estratégia não é nova, mas tornou-se particularmente poderosa em sociedades marcadas pela desconfiança em relação às instituições. Quando a população passa a perceber partidos, parlamentos e governos como estruturas incapazes de representar o interesse público, a promessa de uma regeneração moral adquire enorme força política.[1] O eleitor deixa de buscar apenas competência administrativa ou afinidade ideológica, passando a procurar alguém que simbolize uma ruptura ética com um sistema considerado corrompido.
Essa transformação altera profundamente a natureza da competição democrática. Em uma disputa tradicional, partidos apresentam programas distintos e são avaliados pela capacidade de implementá-los. Quando a legitimidade de um movimento, aos olhos de seus apoiadores, repousa principalmente sobre uma reivindicação moral, porém, o centro da disputa deixa de ser aquilo que um grupo pretende fazer e passa a ser aquilo que ele afirma ser.
Assim, a identidade política torna-se inseparável da identidade moral. O adversário já não aparece apenas como alguém equivocado ou ideologicamente diferente, mas como alguém cuja presença no espaço público representa, por si só, um problema ético.
Essa forma de construção da legitimidade oferece vantagens políticas evidentes. Ela simplifica o debate público, reduz o custo de mobilização eleitoral e fortalece o vínculo emocional entre líderes e apoiadores. Movimentos moralizantes frequentemente conseguem reunir eleitores de orientações econômicas, sociais ou religiosas bastante distintas porque sua coesão depende menos de um programa detalhado do que da convicção compartilhada de que existe uma fronteira moral claramente definida entre “nós” e “eles”.
Como observa Jan-Werner Müller, movimentos populistas frequentemente não afirmam apenas possuir melhores políticas públicas, mas reivindicam representar exclusivamente o povo legítimo.[2] Em contextos de elevada polarização, essa estratégia pode revelar-se extraordinariamente eficaz.[3]
Entretanto, exatamente aquilo que constitui sua principal força também representa sua maior fragilidade. Quando a legitimidade deriva predominantemente de uma reivindicação de superioridade moral, qualquer controvérsia envolvendo integrantes do próprio movimento produz um impacto desproporcional.
Em partidos cuja identidade está fundada principalmente em ideologias, programas ou tradições institucionais, escândalos individuais tendem a ser tratados como desvios pessoais. Já em movimentos cuja autoridade repousa sobre uma promessa de regeneração ética, tais episódios atingem diretamente o fundamento simbólico que sustenta sua existência política. O problema deixa de ser apenas jurídico ou administrativo; torna-se existencial.
Esse paradoxo decorre da própria lógica da legitimidade moral. Quanto maior a distância ética que um movimento estabelece entre si e seus adversários, menor se torna sua margem para administrar incoerências internas. Uma promessa de honestidade absoluta produz expectativas muito mais rigorosas do que uma promessa de eficiência administrativa.
O custo político da contradição cresce na mesma proporção da intensidade da reivindicação moral. Em outras palavras, quanto mais um movimento afirma representar uma ruptura ética, mais severamente será julgado quando seus próprios integrantes forem submetidos ao mesmo escrutínio que antes dirigiam aos adversários.
É importante distinguir, nesse ponto, responsabilidade jurídica e responsabilidade política. A existência de uma investigação, de uma denúncia ou mesmo de uma acusação não equivale, em um Estado de Direito, à demonstração de culpa. Presunção de inocência, devido processo legal e imparcialidade judicial permanecem princípios indispensáveis em qualquer democracia constitucional.
O paradoxo aqui descrito não depende da comprovação de crimes. Ele surge antes disso. Basta que a credibilidade moral — principal fonte de legitimidade do movimento — passe a ser objeto de dúvida no espaço público. A política opera também no terreno da confiança, e a confiança frequentemente se deteriora muito antes da conclusão dos processos judiciais.
Esse fenômeno ajuda a explicar por que movimentos construídos sobre narrativas de regeneração moral frequentemente enfrentam dificuldades de institucionalização. Max Weber observava que a autoridade carismática depende das qualidades extraordinárias atribuídas a indivíduos específicos, e não da estabilidade das instituições.[4]
Enquanto programas e organizações podem sobreviver à substituição de lideranças, o carisma e a superioridade moral reivindicada são muito mais difíceis de transmitir. Eles precisam ser continuamente reconhecidos pelo público. Não podem simplesmente ser herdados.
Essa observação possui implicações relevantes para a sucessão política. Movimentos fortemente associados à virtude pessoal de seus fundadores enfrentam o desafio de demonstrar que sua legitimidade decorre de princípios permanentes, e não apenas da reputação de determinadas figuras.
Quando a continuidade de um projeto depende excessivamente da preservação de uma liderança específica ou de sua linhagem política, surge uma tensão inevitável entre personalismo e institucionalização. A pergunta deixa de ser apenas quem sucederá o líder. Passa a ser se o movimento conseguirá sobreviver sem transformar uma identidade moral em patrimônio familiar.
Nada disso significa que reivindicações morais sejam ilegítimas. Ao contrário. A integridade, a honestidade e o compromisso com a coisa pública constituem expectativas indispensáveis em qualquer democracia saudável.
O problema surge quando a moral deixa de funcionar como critério de avaliação dos governantes e passa a constituir praticamente a única fonte de legitimidade política. Nesse cenário, a política torna-se excessivamente dependente da imagem moral de indivíduos, enquanto instituições, programas e mecanismos de controle perdem relevância.
A confiança pública deixa de repousar na solidez das regras e passa a depender da virtude presumida de pessoas concretas.
Talvez resida aí a principal limitação do moralismo como fundamento da legitimidade política. Nenhuma democracia madura pode depender exclusivamente da convicção de que seus líderes são moralmente superiores aos demais. Pessoas mudam, lideranças são substituídas e reputações podem ser abaladas por erros, acusações ou simples mudanças na percepção pública.[5]
Instituições existem precisamente porque reconhecem essa fragilidade da natureza humana. Quando a legitimidade depende mais da reputação de indivíduos do que da estabilidade das instituições, ela deixa de ser um patrimônio da ordem política e passa a acompanhar as oscilações da biografia de seus líderes.
Movimentos podem conquistar o poder prometendo uma renovação ética; permanecem relevantes, porém, apenas quando conseguem demonstrar que sua legitimidade não repousa exclusivamente sobre a virtude de seus líderes, mas sobre instituições capazes de sobreviver a eles.
[1] Veja como exemplos, Ernest Mensah Akyuamoah, “’It’s Us Against Them’: Populist Rule and Electoral Violence,” Journal of Global Security Studies 11, no. 1 (2026), https://academic.oup.com/jogss/article/11/1/ogag002/8516256; Silvio Waisbord, Populism’s Anti-Liberalism on Free Speech, Georgetown Journal of International Affairs, April 3, 2025, https://gjia.georgetown.edu/science-technology/populisms-anti-liberalism-on-free-speech/.
[2] Jan-Werner Muller, What is Populism (University of Pennsylvania Press, 2016), 3.
[3] Exemplos, Steve Inskeep, “The Use of ‘They’ Adds to How Some Americans See Politics in Terms of Us vs. Them,” NPR, September 23, 2024, https://www.npr.org/2024/09/23/nx-s1-5114057/the-use-of-they-adds-to-how-some-americans-see-politics-in-terms-of-us-vs-them; Jeff Dodge, “Us Versus Them: The ‘Wicked Problem’ of How We Use to Talk to Each Other in 2020,” Colorado State University, October 1, 2020, https://www.libarts.colostate.edu/news/us-versus-them-the-wicked-problem-of-how-we-talk-to-each-other-in-2020/.
[4] Jay A. Conger, “Max Weber’s Conceptualization of Charismatic Authority: Its Influence on Organizational Research,” The Leadership Quarterly 4, no. 3-4 (1993): 278-80.
[5] Exemplo do presidente Richard Nixon: à época, cerca de 75% dos americanos afirmavam confiar no governo federal, até que o escândalo de Watergate, envolvendo o então presidente, veio à tona, “The Credibility Gap: Watergate and the Erosion of Trust,” Roosevelt Institute for American Studies, https://www.roosevelt.nl/en/the-credibility-gap-watergate-and-the-erosion-of-trust/.
